GARE11 em transição: venda de ativos, desalavancagem e nova fase para o fundo

GARE11 em transição: venda de ativos, desalavancagem e nova fase do FII. Entenda as mudanças estratégicas, impacto na carteira e perspectivas para investidores.

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O Fundo de Investimento Imobiliário GARE11 está passando por uma de suas fases mais movimentadas desde o seu lançamento. Nos últimos meses, o fundo anunciou uma série de movimentações estratégicas que prometem alterar significativamente sua estrutura, com destaque para a venda de 10 imóveis, uma nova emissão de cotas e a aquisição de novos ativos. O objetivo central? Reduzir a alavancagem e fortalecer ainda mais sua posição no mercado, mantendo a promessa de renda previsível aos cotistas.

Atualmente, o GARE11 administra um patrimônio de R$ 1,44 bilhão, com 41 imóveis localizados em 14 estados brasileiros. Seu portfólio é uma combinação híbrida, com 75% em ativos de renda urbana, como supermercados e atacarejos das redes Carrefour, Pão de Açúcar e Grupo Mateus, e 25% em logística, incluindo galpões da BAT e Air Liquide. Um dos principais diferenciais do fundo é que 100% de seus contratos são do tipo "atípico", com multa integral em caso de rescisão antecipada pelo inquilino, o que oferece uma camada extra de segurança e previsibilidade.

A grande operação: venda, desalavancagem e um "direito a futuros ganhos"

O movimento mais impactante recente foi a venda de 10 imóveis (quatro do GPA e seis do Grupo Mateus) para o fundo XPRI, gerido pela XP Asset. A transação, que ainda está em fase final de liquidação, deve gerar um lucro bruto estimado de R$ 156 milhões e, mais importante, reduzir a alavancagem do GARE11 em cerca de R$ 357 milhões. Isso colocará o fundo em uma trajetória de alavancagem líquida próxima de zero, um alívio considerável em um cenário de juros ainda elevados.

Porém, a operação é mais sofisticada do que uma simples venda. O GARE11 não apenas vendeu os ativos, mas também adquiriu integralmente as cotas subordinadas do novo fundo (XPRI). Isso significa que, embora tenha se desfeito dos imóveis, o fundo manteve um "pé na porta" para se beneficiar de eventuais valorizações futuras. A estrutura do XPRI prevê que os cotistas sênior recebam um retorno fixo de IPCA + 9% ao ano, e todo o excedente, seja da renda dos aluguéis ou da venda futura dos imóveis com lucro, irá para os cotistas subordinados, ou seja, para o próprio GARE11. A gestão do fundo compara essa mecânica a um "earn-out", comum em fusões e aquisições, onde parte do pagamento é condicionada ao desempenho futuro do ativo vendido.

Novos ativos e um caixa mais robusto

Paralelamente à venda, o GARE11 lançou sua 7ª emissão de cotas, com o objetivo de captar R$ 400 milhões. Esses recursos serão usados para repor os ativos vendidos, com uma estratégia clara de diversificação, e para reforçar ainda mais seu colchão de caixa. Um primeiro passo nessa direção já foi dado com a aquisição de dois imóveis locados à Desco Atacado, no Rio Grande do Sul, por R$ 32,3 milhões. A operação foi feita sem alavancagem e a um cap rate (taxa de retorno sobre o investimento) de 10,20%, acima da média de mercado, reforçando o compromisso com a geração de valor.

O resultado dessas movimentações já é visível. O fundo distribuiu R$ 0,083 por cota em setembro, o que representa um dividend yield anualizado de cerca de 11%. A gestão manteve seu guidance para os próximos meses entre R$ 0,083 e R$ 0,090 por cota. Além disso, a base de cotistas continua a crescer de forma expressiva, ultrapassando a marca de 396 mil investidores, o que o coloca no topo do IFIX em ganho de novos participantes.

Riscos e oportunidades em um novo ciclo

A transformação do GARE11 traz oportunidades claras: uma estrutura de capital mais sólida, com alavancagem em queda livre, e um portfólio de alta qualidade, 100% ocupado e com contratos de longo prazo (WAULT de 12,2 anos). No entanto, alguns pontos merecem atenção. A concentração de receita ainda é um fator relevante, com 34% vindo do Carrefour e 42% somente dos grupos Mateus e BAT. Embora sejam inquilinos de altíssima qualidade (com ratings AAA), uma dependência tão grande de poucos locatários sempre representa um risco concentrado.

Além disso, a complexidade da operação com a XP, embora estrategicamente sólida, pode gerar confusão entre investidores menos experientes. A promessa de ganhos futuros com as cotas subordinadas é atraente, mas depende de um cenário macroeconômico mais favorável, com juros em queda, para se materializar plenamente.

Em resumo, o GARE11 está em um momento de transição, deixando para trás uma fase de crescimento acelerado e entrando em um novo ciclo com foco em solidez e sustentabilidade. A aposta da gestão é clara: trocar um pouco de complexidade por uma estrutura financeira muito mais resiliente, tudo isso sem abrir mão da renda atrativa que atraiu centenas de milhares de cotistas. O sucesso dessa nova fase dependerá da execução impecável dessas estratégias.

Leonardo D'Ippolito
Escrito por

Leonardo D'Ippolito

Especialista em tecnologia com mais de 20 anos de experiência em desenvolvimento de software. Pós-graduado em gestão financeira e investimentos pela FGV. Investidor de fundos imobiliários desde 2013, criou o BrFiis para compartilhar conhecimento e facilitar o acompanhamento de FIIs.

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