TRXF11 fecha compra de torre para o Sírio-Libanês por R$ 328 milhões

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O TRXF11 acaba de dar mais um passo na direção do setor de saúde. Em fato relevante publicado em 19 de março de 2026, o fundo anunciou a celebração de compromisso de compra e venda de 18 unidades autônomas (9 lajes corporativas) que serão ocupadas pelo Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. O valor total da operação, somando aquisição e reforma, pode chegar a R$ 348,4 milhões. Para os cotistas do TRXF11, a notícia levanta uma pergunta natural. O negócio é bom para quem está do lado de cá?

O que está sendo comprado e por quanto

O fundo vai adquirir 9 lajes corporativas no empreendimento "O Parque", um complexo multiuso localizado na região da Chucri Zaidan, no Brooklin, zona sul de São Paulo. O prédio, chamado Torre Corporativa Orvalho, é classificado como classe A+ e possui certificação LEED Gold.

O preço de aquisição dos imóveis é de R$ 219.436.510,42. Mas o desembolso não para aí. O TRXF11 também bancará as obras de adaptação para uso hospitalar, no valor de R$ 109 milhões, podendo chegar a R$ 129 milhões caso o aporte adicional de capex seja acionado. Somando tudo, o investimento total fica entre R$ 328,4 milhões e R$ 348,4 milhões.

O custo de aquisição por metro quadrado ficou em R$ 32.676,12, considerando uma área bruta locável (ABL) de 10.051,27 m².

Como o pagamento será feito

A estrutura de pagamento é parcelada e merece atenção. Do preço de R$ 219,4 milhões, R$ 68,16 milhões serão pagos à vista no fechamento da transação. O saldo de R$ 151,27 milhões será dividido em cinco parcelas: três trimestrais (duas de R$ 6,4 milhões e uma de R$ 2,1 milhões) e duas semestrais de R$ 68,16 milhões cada.

As parcelas trimestrais são fixas e irreajustáveis, enquanto as semestrais serão corrigidas pelo IPCA acrescido de juros de 4,5% ao ano. Para o fundo, isso significa que o custo financeiro do parcelamento está atrelado à inflação, o que faz sentido considerando que o aluguel também será reajustado pelo IPCA.

O valor das obras (R$ 109 milhões a R$ 129 milhões) será desembolsado separadamente, conforme a adaptação do imóvel avança.

O contrato com o Sírio-Libanês será longo e com multa pesada

O contrato de locação é atípico, na modalidade built to suit, com vencimento em fevereiro de 2054. São quase 28 anos de vigência. O aluguel é composto por uma parte fixa, sem possibilidade de ação revisional durante todo o prazo inicial, e uma parte variável, que pode ser revisada com limitação de 12,5% para cima ou para baixo.

O cap rate anunciado é de 8,00% ao ano, com reajuste pelo IPCA. A garantia é fiança bancária, e o aviso prévio para saída é de 9 meses.

A tabela de multas rescisórias é robusta. Nos primeiros anos (até setembro de 2029), a penalidade chega a R$ 180 milhões, valor que vai diminuindo gradualmente até o final do contrato. Além da multa fixa, há uma cláusula adicional, o Sírio-Libanês teria que pagar o equivalente a 9 vezes o aluguel vigente mais o reembolso integral do capex da obra (mínimo de R$ 109 milhões), corrigido por CDI + 2,5%.

Em termos práticos, sair desse contrato nos primeiros 10 anos custaria ao hospital algo próximo do valor total da transação. É o tipo de proteção que faz diferença na previsibilidade de receita.

A carência e a renda mínima garantida

O contrato prevê carência no aluguel até setembro de 2026 e desconto no valor até fevereiro de 2027, período em que o Sírio-Libanês estará adaptando o imóvel para operação hospitalar. Mas o fato relevante deixa claro que o vendedor pagará renda mínima garantida ao TRXF11 durante esse período, neutralizando completamente o impacto da carência e do desconto.

Ou seja, o fundo começa a receber desde o fechamento, mesmo antes do hospital estar funcionando. Essa é uma estrutura que a TRX já utilizou em outras operações, como no galpão da Shopee em Londrina, onde o desenvolvedor paga renda mínima durante o período de obras.

O que a gestora enxerga no setor de saúde

Segundo Gabriel Barbosa, sócio e gestor da TRX, a tese de investimento em hospitais se apoia em uma lógica simples: "Dificilmente um hospital é desativado. Pelo contrário, estão sempre em expansão." Na visão da gestora, hospitais de alto padrão criam uma fidelidade ao ponto comercial semelhante à das grandes redes de varejo, porque o público se acostuma com a localização.

Mas a TRX faz questão de ser seletiva. A gestora já declarou publicamente que só trabalha com inquilinos hospitalares de primeira linha. "Hospital para nós tem que ser Einstein, Sírio e talvez Rede D'Or", afirmou Barbosa em entrevista ao Metro Quadrado.

Outro ponto que a gestora destaca é a flexibilidade do imóvel. Por se tratar de um prédio corporativo classe A+ que está sendo adaptado para uso hospitalar, caso o contrato eventualmente se encerre, as lajes podem voltar a ser utilizadas como escritórios. É uma região que vem intensificando a ocupação corporativa, com fácil acesso à Marginal Pinheiros, ao Shopping Morumbi e à estação de metrô Brooklin.

Como fica o portfólio do TRXF11 após a aquisição

Com a entrada do Sírio-Libanês, o fundo passa a ter 115 imóveis (considerando também a alienação de 9 imóveis anunciada em dezembro de 2025 e a compra do galpão da Shopee em fevereiro de 2026). O valor investido em imóveis sobe 4,63%, para R$ 7,42 bilhões, e a ABL total cresce 0,83%, para 1.218.204,14 m².

O prazo médio dos contratos salta de 12,02 para 13,27 anos, um aumento de 10,4%. Contratos longos são o DNA do TRXF11, e essa aquisição reforça essa característica.

O segmento hospitalar passa a representar 12,12% da ABL do fundo, e o Sírio-Libanês sozinho responderá por 4,45% da receita de aluguel. Somando com o Albert Einstein (10,56%), o setor de saúde/hospitalar já representa cerca de 15% da receita total. É uma mudança de perfil relevante para um fundo que nasceu focado em varejo alimentício.

A estimativa de distribuição por cota até dezembro de 2026 permanece inalterada, entre R$ 0,90 e R$ 0,93. A gestão sinalizou que a aquisição não altera o guidance atual.

O que a comunidade está dizendo

A reação nos fóruns e redes sociais foi mista, como costuma acontecer com movimentações grandes. Parte dos investidores celebrou a qualidade do inquilino e a robustez do contrato. Comentários como "simplesmente o melhor hospital do Brasil" e "contrato até 2054, isso entra no Guinness?" deram o tom do entusiasmo.

Por outro lado, investidores mais cautelosos levantaram pontos válidos. Um deles notou que o fato relevante não detalha o valor exato do aluguel mensal que o fundo receberá, o que dificulta a análise de retorno por conta própria. Outro questionou se o preço pago por metro quadrado não estaria elevado em comparação com transações recentes na mesma região.

Há também quem observe, com razão, que o volume de movimentações recentes do fundo (venda de imóveis, compra do galpão Shopee, agora o Sírio-Libanês) torna a análise mais complexa para o investidor pessoa física. "Problema aqui é que tem muita movimentação, sendo difícil de analisar e entender qualquer lógica do fundo a médio prazo", resumiu um forista.

A transação ainda depende de uma condição

Um ponto que pode passar despercebido é de que a conclusão da compra está condicionada ao não exercício do direito de preferência pelo próprio Hospital Sírio-Libanês. Se o hospital decidir comprar os imóveis para si, a transação não se concretiza. Além disso, há condições precedentes previstas no compromisso de compra e venda que precisam ser superadas.

A expectativa da gestora é que o fechamento ocorra em até 30 dias a partir de 19 de março de 2026. Só após essa etapa o TRXF11 será efetivamente imitido na posse dos imóveis e o contrato de locação passará a vigorar em nome do fundo.

O que ficar de olho daqui para frente

O TRXF11 negocia a R$ 91,59 (fechamento de 19 de março), com P/VP de 0,91 e dividend yield de 12,89% nos últimos 12 meses. O fundo distribui R$ 0,93 por cota desde janeiro e mantém o guidance nessa faixa até o final do ano.

Os próximos 30 dias são decisivos. É quando saberemos se o Sírio-Libanês exercerá ou não o direito de preferência. Caso a transação se confirme, o fundo consolida uma exposição significativa ao setor de saúde com dois dos hospitais mais prestigiados do Brasil. O investidor deve acompanhar também o andamento das obras de adaptação e, principalmente, quando o aluguel integral (sem carência) começará a ser pago, previsto para após fevereiro de 2027.

Num fundo que já tem 115 imóveis e mais de R$ 6,3 bilhões de patrimônio líquido, cada nova aquisição precisa ser avaliada pelo que agrega ao todo. Nesse caso, a combinação de inquilino premium, contrato de quase três décadas e imóvel flexível em localização valorizada conta uma história que faz sentido no papel. Resta acompanhar se os números, quando vierem completos, confirmarão a tese.

Leonardo D'Ippolito
Escrito por

Leonardo D'Ippolito

Investidor de fundos imobiliários desde 2013 e pós-graduado em gestão financeira e investimentos pela FGV. Criou o BrFiis para facilitar o acompanhamento de FIIs e compartilhar conhecimento com a comunidade de investidores. Formado em Computação, utiliza sua experiência de mais de 20 anos em desenvolvimento de software para construir ferramentas que simplificam a análise de fundos imobiliários.

Aviso importante

Este artigo não representa recomendação de compra ou venda de qualquer ativo. O conteúdo tem caráter informativo e a decisão final de investimento permanece sob a responsabilidade do leitor.

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