TGAR11 despenca 11% após novo guidance: pânico exagerado ou sinal de alerta real?

O que está acontecendo com o TGAR11? Qual o motivo da grande queda na cotação?

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O maior fundo de desenvolvimento imobiliário do Brasil acordou os investidores com um susto. O TGAR11 derreteu mais de 11% em um único pregão, fechando a R$ 82,30 após a divulgação do relatório gerencial de dezembro. O gatilho? Uma revisão no guidance de dividendos que pegou o mercado de surpresa. Mas será que a reação foi proporcional ao problema, ou estamos diante de mais um episódio de pânico coletivo no mercado de FIIs?

O que mudou para causar essa queda

A gestora TG Core Asset revisou a faixa de distribuição para o primeiro semestre de 2026. O guidance anterior, que era de R$ 0,80 a R$ 1,10 por cota, passou para R$ 0,70 a R$ 1,00. Na prática, a banda inferior caiu 12,5% e a superior recuou 9%. O fundo vinha pagando R$ 1,00 por cota religiosamente nos últimos 12 meses, totalizando R$ 12,00 no período.

Três fatores principais justificam a revisão, segundo o relatório: atrasos nos desligamentos bancários das incorporações, desaceleração na velocidade de vendas e o adiamento do recebimento da venda da Viel, controladora da Cipasa e Nova Colorado. Nenhum desses problemas surgiu da noite para o dia, mas a comunicação formal parece ter cristalizado uma realidade que muitos preferiam ignorar.

Por que o mercado reagiu com tanta força

A queda de 11% em um único dia é atípica para fundos imobiliários. Para efeito de comparação, essa volatilidade se aproxima mais do que se espera de ações ou até de criptomoedas do que de um FII. O volume negociado no dia 27 de janeiro foi de R$ 42,9 milhões, quase sete vezes a média diária do fundo, que gira em torno de R$ 6,5 milhões.

O que explica essa reação desproporcional? O investidor de FII brasileiro ainda compra dividendo, não fundamento. Quando a perspectiva de rendimento cai, a cotação segue junto, independentemente do que está acontecendo com os ativos subjacentes. É uma dinâmica conhecida, mas que se intensifica em fundos de desenvolvimento como o TGAR11, onde a geração de caixa depende de variáveis mais complexas do que simplesmente receber aluguel.

Há também um componente de memória recente. Investidores que viram fundos como HCTR11, TORD11 e outros "queridinhos" derreterem nos últimos anos desenvolveram um reflexo de fuga ao primeiro sinal de problema. O medo de segurar um ativo em queda e ver o prejuízo se multiplicar faz muita gente vender primeiro e pensar depois.

O que os números realmente mostram

Antes de decretar o fim do TGAR11, vale olhar para o que o fundo efetivamente tem. O patrimônio líquido é de R$ 2,52 bilhões, dos quais aproximadamente R$ 2 bilhões estão alocados em participações societárias (equity). O portfólio conta com 159 empreendimentos e mais de 82 mil unidades imobiliárias.

O dado mais importante para quem deseja entender o risco real: 72,4% da carteira de equity já está em projetos performados, ou seja, com obras acima de 80% concluídas. Isso significa que o principal risco do desenvolvimento imobiliário, a execução das obras, está substancialmente mitigado na maior parte do portfólio. Apenas 5,1% está em landbank, ou seja, em projetos em estágio inicial.

O valor presente da carteira vendida a receber soma R$ 2,50 bilhões. Além disso, há R$ 2,04 bilhões em estoque contabilizado a custo que ainda não gerou nenhuma receita. A inadimplência acumulada permanece abaixo de 6%, um patamar considerado controlado para o segmento.

O problema real: timing e macroeconomia

O cenário macroeconômico é o verdadeiro culpado aqui. Com a Selic em 15% ao ano, o custo do crédito imobiliário disparou. A taxa média de financiamento para aquisição de imóveis saltou de 11,56% ao ano em janeiro de 2024 para 14,89% em setembro de 2025.

O relatório traz um exemplo didático: um financiamento de R$ 500 mil em 30 anos exigia renda familiar de R$ 15.860 no início de 2024. Com a taxa atual, essa exigência subiu para R$ 19.700, um aumento de 24%. Isso reduz drasticamente o universo de potenciais compradores e, consequentemente, a velocidade de vendas e desligamentos bancários.

O Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), principal fonte de funding do setor, registrou saques líquidos de R$ 62,98 bilhões ao longo de 2025. Menos dinheiro disponível significa mais seletividade dos bancos e prazos mais longos para liberar financiamentos.

O que muitos investidores não entendem sobre desenvolvimento

Fundos de desenvolvimento funcionam de forma diferente de fundos de tijolo ou papel. O retorno não vem de aluguel mensal ou carrego de CRIs, mas da construção e venda de unidades imobiliárias. O ciclo é mais longo e a geração de caixa é naturalmente mais volátil.

Quando você compra um apartamento na planta, normalmente paga 30% durante a obra e os 70% restantes na entrega das chaves, seja com recursos próprios ou via financiamento bancário. É nesse momento do desligamento bancário que a incorporadora recebe o grosso do capital. Com juros altos e funding escasso, esse processo está demorando mais do que o previsto.

O TGAR11 tem muito dinheiro para receber. O problema é que esse recebimento está sendo postergado. Não é que os ativos perderam valor ou que os projetos estão dando errado. É uma questão de timing, e timing em desenvolvimento imobiliário depende fortemente do ambiente de crédito.

A postura da gestão: conservadorismo ou prudência?

A decisão de reduzir o guidance pode ser lida de duas formas. Para os pessimistas, é sinal de que a situação está pior do que se imaginava. Para os mais analíticos, é uma postura responsável de uma gestão que prefere comunicar cenários realistas a manter expectativas infladas.

O relatório anterior, de novembro, tinha apenas uma página na carta do gestor e terminava com otimismo sobre a queda da Selic em 2026. O relatório de dezembro trouxe cinco páginas de explicações detalhadas sobre os desafios. A mudança de tom foi brusca, mas a transparência é preferível à omissão.

A gestão reforça que qualquer referência a rentabilidade esperada não deve ser interpretada como promessa. E destaca que o mercado já precifica cortes na Selic para o primeiro trimestre de 2026. Se isso se confirmar, os efeitos podem aparecer relativamente rápido na ponta do crédito.

O que ficar de olho daqui para frente

O próximo teste de fogo é o anúncio de dividendos referente a janeiro, previsto para o final do mês. Se vier R$ 0,70, a cotação provavelmente sofrerá nova pressão. Se vier R$ 0,90 ou R$ 1,00, pode haver algum alívio. O guidance amplo deixa margem para qualquer cenário.

A política monetária é a variável mais importante para o futuro do fundo. Os efeitos de uma eventual queda da Selic levam de 6 a 9 meses para chegar na economia real. Mesmo que os cortes comecem em março, o TGAR11 só deve sentir melhora consistente no segundo semestre de 2026 ou início de 2027.

Para quem já está posicionado, a decisão de vender ou manter depende do horizonte de investimento e da tolerância a volatilidade. Para quem está de fora, a queda pode representar oportunidade, mas exige estômago para aguentar mais turbulência no curto prazo. O fundo não quebrou, não está insolvente e tem ativos reais gerando valor. Mas também não é um investimento para quem busca previsibilidade ou não entende os riscos do desenvolvimento imobiliário.

Leonardo D'Ippolito
Escrito por

Leonardo D'Ippolito

Especialista em tecnologia com mais de 20 anos de experiência em desenvolvimento de software. Pós-graduado em gestão financeira e investimentos pela FGV. Investidor de fundos imobiliários desde 2013, criou o BrFiis para compartilhar conhecimento e facilitar o acompanhamento de FIIs.

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Comentários

1 comentário
Henrique #ef04836894 · 28 de janeiro de 2026 às 15:15

Artigo claro, com bom conteúdo, e bem escrito. Parabéns! E obrigado pelo seu tempo.

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Este artigo não representa recomendação de compra ou venda de qualquer ativo. O conteúdo tem caráter informativo e a decisão final de investimento permanece sob sua responsabilidade.

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