O rendimento de R$ 0,69 por cota pago em janeiro pelo IRIM11 assustou muita gente. Quem acompanha o fundo da Iridium Gestão nos fóruns e redes sociais sabe que o humor azedou naquele mês, com investidores questionando se o patamar de distribuição estava se deteriorando de forma estrutural. Pois o relatório gerencial de fevereiro de 2026, divulgado em 12 de março, trouxe um alívio concreto. O fundo distribuiu R$ 0,80 por cota, com resultado caixa de R$ 0,81. A diferença de um centavo foi para a reserva de resultados. A mensagem é de que janeiro foi pontual, não tendência.
O que explica a recuperação do rendimento
O resultado de fevereiro foi impulsionado por dois fatores principais. Primeiro, houve melhora na correção monetária da carteira de CRIs, com o IPCA médio reconhecido no resultado caixa ficando em 0,31%, refletindo leituras recentes de inflação em patamares mais elevados. Segundo, o fundo recebeu um prêmio de quitação relacionado ao CRI Allegra Pacaembu, que sozinho gerou um ganho de capital de cerca de R$ 0,09 por cota.
Na live de resultados realizada em 16 de março, o gestor Yannick Bergamo foi direto ao ponto. O rendimento de R$ 0,69 em janeiro havia sido pressionado por um prejuízo maior nas vendas de FIIs daquele mês. Em fevereiro, com volume de vendas menor, o prejuízo caiu para apenas R$ 0,01 por cota. "A gente achou que, como o rendimento foi muito baixo no mês anterior, era melhor já imprimir um rendimento um pouco melhor para levantar a moral do fundo", reconheceu o gestor durante a live.
A operação do Allegra Pacaembu e o dinheiro que ainda vem
O destaque operacional do mês foi a reestruturação do CRI Allegra Pacaembu. O fundo alocou cerca de 0,3% do patrimônio líquido em uma nova série mezanino, a CDI + 4,0%, cujos recursos foram usados para refinanciar integralmente as dívidas da concessionária. Com isso, o CRI antigo foi quitado e a exposição caiu de aproximadamente 1,4% do PL para os atuais 0,3%.
A liquidação elevou a TIR da operação para aproximadamente CDI + 9% no momento da quitação. E tem mais, o fundo ainda tem direito a duas parcelas adicionais desse prêmio, previstas para julho e dezembro, cada uma representando cerca de R$ 0,03 por cota de resultado extra. É o tipo de operação que analistas do mercado consideram um exemplo de boa gestão ativa de crédito, com ganho de capital relevante e visibilidade de receitas futuras.
Reciclagem de FIIs
A gestão continuou o processo de reciclagem da carteira de fundos imobiliários, mas pisou no freio. As vendas representaram apenas 0,18% do patrimônio líquido em fevereiro, volume inferior ao mês anterior. Segundo o relatório, a desaceleração foi intencional, o ambiente de preços estava menos favorável e havia preocupação em não comprometer o rendimento no curto prazo.
Os fundos com maior volume de vendas foram RBHY11, DEVA11, VSLH11 e HDOF11. A estratégia de longo prazo permanece, que é migrar a carteira de FIIs de crédito (os chamados "fundos de papel") para fundos de tijolo. O BTLG11, por exemplo, segue como maior posição em FIIs com 4,39% do PL, e o gestor deixou claro na live que esse é um investimento com horizonte de um a dois anos, apostando na valorização quando a curva de juros ceder.
A carteira de FIIs encerrou fevereiro em 19,22% do PL, contra 19,54% em janeiro. A queda veio tanto das vendas quanto da marcação a mercado negativa de alguns ativos.
O caso GPA e o monitoramento de crédito
Um ponto que mereceu atenção especial no relatório foi o monitoramento dos CRIs lastreados em operações com Assaí/GPA, que juntos representam 0,78% do PL. Com o pedido de recuperação extrajudicial do Grupo Pão de Açúcar, esses ativos entraram no radar da comunidade de investidores.
A gestão trouxe argumentos para tranquilizar os cotistas. As operações contam com alienação fiduciária de imóvel como garantia. A companhia sinalizou intenção de manter o pagamento regular dos aluguéis. E mesmo numa eventual migração para recuperação judicial, os aluguéis gerados após o pedido teriam natureza extraconcursal, ficando fora do processo. Na live, o gestor reforçou: "Os nossos CRIs não se sujeitam a esse pedido de recuperação. São CRIs lastreados em aluguéis, e a própria companhia deixou claro que os créditos sujeitos ao plano são os financeiros."
O desconto do IRIM11 que intriga o mercado
O IRIM11 fechou fevereiro com cota patrimonial de R$ 84,13 e cota de mercado de R$ 64,50, o que representa um desconto superior a 23% (P/VP de 0,76). O dividend yield na cota de mercado ficou em 1,24% no mês, equivalente a 14,88% anualizado. Nos últimos 12 meses, o DY acumulado na cota de mercado é de 14,01%.
A carteira de CRIs, que representa 76,04% do PL, carrega uma taxa nominal média de 14,67% na marcação a mercado, com duration de 3,51 anos. O grosso da exposição (87,80% dos CRIs) está indexado ao IPCA, o que significa que a Selic caindo teria pouco impacto no rendimento, mas deveria provocar valorização da cota. Como o próprio gestor explicou: "Hoje o IRIM se comportaria num cenário de queda de juros de maneira semelhante a um fundo de tijolo: receita mais ou menos constante e o preço subindo."
Esse desconto elevado combinado com yield alto tem chamado atenção. Na live, foi mencionado que o BTHF11, fundo gerido pelo BTG que investe no IRIM11, destacou em seu próprio relatório gerencial que o fundo está "muito barato", mostrando um gráfico que cruza dividend yield com P/VP. A Iridium, por sua vez, atribui parte da pressão na cota à possível saída do fundo do IFIX, com vendas de investidores estrangeiros e ETFs passivos, mas indicou que o retorno ao índice é provável já na carteira de maio.
O que esperar nos próximos meses
A perspectiva para março e os meses seguintes é de manutenção ou até melhora no patamar de rendimento. O gestor apontou que o IPCA segue em patamares elevados, com pressão adicional vinda do preço da gasolina em meio ao cenário geopolítico. Além disso, alguns CRIs que tiveram pagamento escorregando de fevereiro para março devem gerar dois pagamentos no mesmo mês, compensando eventuais efeitos de dias úteis.
A gestão também sinalizou que pretende, gradualmente, construir uma reserva de resultados mais robusta, aproveitando prepagamentos e ganhos de capital extraordinários. O objetivo futuro é conseguir linearizar melhor os rendimentos mês a mês, de forma semelhante ao que já fazem no IRIF11. Por enquanto, a reserva ainda é pequena, e o regime de caixa seguido pelo administrador limita essa suavização.
Para quem tem o IRIM11 na carteira, o recado mais importante talvez tenha vindo do próprio gestor: "Não adianta precificar o fundo com o último rendimento. Um mês o rendimento é ruim, todo mundo vende, o preço cai. Aí quem é esperto compra nesse momento, o mês seguinte vem um rendimento bom." É o tipo de lembrete que vale reler antes de tomar qualquer decisão baseada em um único mês.
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