IRIM11 paga o menor rendimento da história e cota despenca

Entenda a queda nos dividendos do IRIM11. Analisamos os motivos da redução do provento e as perspectivas para o fundo imobiliário da Iridium.

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O IRIM11 distribuiu R$ 0,69 por cota referente a janeiro de 2026, o menor valor já pago pelo fundo. A notícia foi um balde de água fria nos mais de 226 mil cotistas, e a reação do mercado foi imediata: no pregão de 11 de fevereiro, a cota fechou a R$ 64,70, uma queda de 4,68% em um único dia, com volume financeiro de R$ 17,2 milhões, mais de três vezes a média diária dos últimos 30 dias. Nos fóruns de investidores a frustração é notável. Mas o que de fato explica esse rendimento tão baixo?

Por que o rendimento caiu tanto?

A resposta não está em um único vilão, mas em uma combinação de fatores que se somaram no mesmo mês.

O primeiro e mais citado pela gestão é o IPCA baixo. A carteira de CRIs do IRIM11 é majoritariamente indexada ao IPCA (87,57% dos CRIs), e existe uma defasagem natural de cerca de dois meses entre a inflação medida e o resultado que aparece no caixa do fundo. O IPCA médio reconhecido na carteira em janeiro foi de apenas 0,13%, refletindo os índices fracos de outubro (quando o IPCA foi especialmente baixo) e novembro (0,08%). A correção monetária gerada pela carteira de CRIs caiu para R$ 2,98 milhões em janeiro, abaixo até dos R$ 3,15 milhões de dezembro.

Mas não podemos botar a culpa só no IPCA. A receita total de CRIs em janeiro foi de R$ 23,38 milhões, acima dos R$ 20,94 milhões de dezembro. O que aconteceu, então?

O segundo fator é a reciclagem da carteira de FIIs. A gestão vendeu aproximadamente R$ 13 milhões em cotas de fundos imobiliários ao longo de janeiro, o dobro do volume de dezembro. Entre os desinvestimentos estão posições em DEVA11, HCTR11, VSLH11, TORD11 e o encerramento integral da posição em TRUE11. Essas vendas geraram um impacto negativo de aproximadamente R$ 0,03 por cota no resultado. É o preço de limpar a carteira herdada do antigo IRDM11.

O terceiro ponto, menos óbvio, é que em dezembro o fundo havia distribuído R$ 0,89, mas desse valor, R$ 0,23 vinham de reserva acumulada. O resultado efetivamente gerado pelos ativos em dezembro foi de R$ 0,66 por cota. Visto por esse ângulo, os R$ 0,69 de janeiro representam até uma leve melhora na geração de caixa. Um cotista atento trouxe exatamente esse ponto: "a atual distribuição de R$ 0,69 foi até positiva" quando comparada ao resultado recorrente real do mês anterior.

Por fim, há um quarto fator: a integralização das cotas de GARE11 e TRXF11 ocorreu em dezembro na forma de recibos, e não de cotas plenas. Recibos pagam rendimentos menores. Isso custou cerca de R$ 0,02 por cota ao resultado de janeiro.

O problema estrutural que a gestão não consegue resolver (ainda)

Na live de resultados realizada em 11 de fevereiro, o gestor Yannick detalhou uma questão técnica que ajuda a entender por que o rendimento do IRIM11 fica abaixo do que as taxas da carteira sugeririam.

O fundo compra CRIs com deságio. Quando um CRI foi emitido a IPCA + 6% e o fundo compra a IPCA + 9%, ele paga menos do que o valor de face, digamos R$ 90 em vez de R$ 100. Com isso, consegue comprar mais quantidade de papéis. Porém, o fluxo de caixa que esse CRI gera continua sendo baseado na taxa de emissão (IPCA + 6%), não na taxa de compra. A diferença de R$ 10 entre o preço pago e o valor de face fica "presa" e só pode ser distribuída quando o CRI amortiza ou é vendido.

Para dar uma dimensão prática: quando o fundo vendeu uma posição de apenas 0,68% do patrimônio líquido no CRI Assaí FII Barzel (comprado acima de IPCA + 9% e vendido a IPCA + 6,75%), isso gerou R$ 0,05 por cota de resultado. Considerando que cerca de 70% do patrimônio está em situação semelhante, existe um resultado retido significativo que a gestão ainda não consegue distribuir.

A Iridium afirmou estar em discussão com o administrador BTG Pactual para encontrar uma forma de apropriar esse deságio ao longo do tempo, em vez de esperar a amortização integral. Mas, por enquanto, o regime caixa impõe essa limitação.

A faxina nos FIIs "problemáticos"

Uma das maiores fontes de atrito entre a gestão e os cotistas é a presença de fundos como DEVA11, HCTR11, VSLH11 e TORD11 na carteira. São heranças do antigo IRDM11 que geraram prejuízos relevantes e continuam pesando no resultado.

Os números do relatório mostram que a limpeza está avançando. Em janeiro, as posições foram reduzidas em termos de cotas: DEVA11 em 5,8%, HCTR11 em 16,6%, VSLH11 em 18,6% e TORD11 em 11,6%. No final de fevereiro, esses quatro fundos juntos representam menos de 1,8% do patrimônio líquido. A gestão estima que até o final de 2026 seja possível encerrar todas essas posições, embora o ritmo dependa dos preços de mercado.

O analista Kiko do canal Dicionário do Investidor fez uma conta direta: "Eles estão buscando R$ 1 milhão de prejuízo por mês" com essas vendas. É um custo real que aparece na DRE e comprime o rendimento distribuível. Na live, a gestão sinalizou que em fevereiro tentaria reduzir o volume de vendas para que o prejuízo caísse "mais ou menos pela metade".

Além dos FIIs, o fundo tem cerca de 7% a 8% da carteira em CRIs sob acompanhamento especial, incluindo operações como Bewiki (2,03% do PL), que retomou pagamentos em patamar reduzido, e Termas Resort (0,15% do PL), onde a gestão negocia o alongamento do prazo com exigência de retorno das amortizações.

O desconto de 23% sobre o valor patrimonial

Com a cota de mercado a R$ 64,70 e o valor patrimonial em R$ 83,80, o IRIM11 negocia com um P/VP de 0,77, ou seja, um desconto de 23% sobre o valor dos ativos. O dividend yield dos últimos 12 meses está em 15,12% sobre o preço de mercado.

A comunidade de investidores está dividida. De um lado, há quem veja oportunidade clara. "Nesses preços, sou comprador e não vejo risco demasiado na carteira", escreveu um investidor. Do outro lado, a frustração é intensa, especialmente entre quem migrou do antigo IRDM11 com preço médio elevado.

Um ponto levantado nos fóruns que merece atenção é a saída do IRIM11 de uma carteira recomendada da Suno. Na live, o gestor foi direto: "Não tenho opinião sobre isso. Uma decisão da Suno não é algo que me compete. Isso não muda em nada o valor dos ativos da carteira."

O que esperar dos próximos meses

A gestão projeta melhora gradual. O IPCA de dezembro e janeiro foi de 0,33% em ambos os períodos, e esses valores começarão a ser reconhecidos no resultado caixa nos próximos meses, com a defasagem natural. Se a correção monetária dobrar em relação ao patamar atual, o rendimento poderia subir, mas provavelmente não muito além de R$ 0,75 por cota.

A taxa nominal média da carteira de CRIs está em 14,81% ao ano, e a carteira como um todo apresenta duration de 4,12 anos. A tese da Iridium é de posicionamento para um cenário de queda da Selic: com os CRIs travados em taxas altas de IPCA+, uma redução nos juros valorizaria esses ativos sem reduzir o rendimento. Na live, o gestor foi explícito: "A gente aproveitou para migrar a carteira para IPCA porque o nível de juros hoje é alto. Com a queda da Selic, o rendimento deveria ficar constante ou melhorar, e a cota deveria se valorizar."

É uma aposta de prazo mais longo. E é justamente aí que mora o desconforto, pois quem precisa de rendimento previsível no curto prazo está sofrendo com a volatilidade mensal que uma carteira fortemente indexada ao IPCA naturalmente produz.

O retrato de um fundo em transição

O IRIM11 vive um momento que exige paciência e, acima de tudo, clareza sobre o que se está comprando. É um fundo de quase R$ 3 bilhões em patrimônio, com 157 CRIs em carteira, taxa média de compra de IPCA + 10,07%, e um processo ativo de reciclagem que ainda vai levar meses para se completar. O rendimento de R$ 0,69 doeu, mas o resultado retido no deságio dos CRIs e a expectativa de melhora na correção monetária são fatores concretos que podem mudar o cenário.

O investidor deve acompanhar três coisas nos próximos relatórios: a evolução da correção monetária (que deve subir com o IPCA mais alto de dezembro e janeiro), o ritmo de venda dos FIIs problemáticos (e o prejuízo associado) e, principalmente, se a gestão conseguirá destravar junto ao BTG a distribuição do resultado retido nos deságios. É nesse último ponto que pode estar a diferença entre um fundo que paga R$ 0,70 e um que volta a distribuir R$ 0,85 ou mais por cota.

Leonardo D'Ippolito
Escrito por

Leonardo D'Ippolito

Especialista em tecnologia com mais de 20 anos de experiência em desenvolvimento de software. Pós-graduado em gestão financeira e investimentos pela FGV. Investidor de fundos imobiliários desde 2013, criou o BrFiis para compartilhar conhecimento e facilitar o acompanhamento de FIIs.

Aviso importante

Este artigo não representa recomendação de compra ou venda de qualquer ativo. O conteúdo tem caráter informativo e a decisão final de investimento permanece sob a responsabilidade do leitor.

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